Falemos de casas. Do sagaz exercício de um poder tão firme e silencioso como só houve no tempo mais antigo. Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer, sorrindo com ironia e doçura no fundo de um alto segredo que os restitui à alma. De doces mãos irreprimíveis. Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas, as casas encontram o seu inocente jeito de durar contra a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras. Estas são as casas. A nossa casa. E se vamos morrer nós mesmos, espantamos-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos que não viram as torrentes infindáveis das rosas, ou as águas permanentes, ou um sinal de eternidade espalhado nos corações rápidos e vazios. Que fizeram estes arquitectos destas casas ? Eles que vagabundearam pelos muitos sentidos dos meses, dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra, para que se faça uma ordem, uma duração, um sentido , uma beleza contra a força divina? Falemos de casas como quem fala da sua alma, entre um incêndio, junto ao modelo das searas, na aprendizagem da paciência e da vontade. Do desejo. Do desejo de querer vê-las erguer e elevarem-se aos céus e morrer com um pouco, um pouco de beleza. De sentido.