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Quilómetro Dezasseis

Posted by Antonio on segunda-feira, dezembro 10, 2007 in
" O sol dentro de um incêndio. Correr entre chamas, atravessar ruínas a vergarem-se sobre chamas que se agitam, como se dançassem, felizes pela destruição, e encontrar, no centro desse incêndio, o sol, o único imperador, imenso, sereno, assistindo à consumação do seu trabalho, à propagação inevitável do mal que criou, que desejou criar. À procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, á sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal. Como a noite."
José Luís Peixoto in "Cemitério de Pianos"

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